terça-feira, 29 de março de 2016

Pipocas e Lendas: Batman Vs. Superman e muitas outras coisas


Olá, pessoas aleatórias e não-aleatórias que passam por aqui! Sei que disse que voltaria com mais uma postagem musical, mas como assisti a “Batman Vs. Superman” ontem, resolvi diversificar um pouco o assunto. Fazia tempo que eu não tinha vontade de comentar um filme, mas este quebrou o meu verdadeiro marasmo cinematográfico.

Bem, as discussões sobre a película tem sido bastante inflamadas e as críticas dos maiores veículos (como Rotten Tomatoes e sites especializados) têm tendido mais para o negativo. Confesso que, num primeiro momento, a temática de “picuinha” entre dois super-heróis não me atraiu, mas como o Matheus estava muito curioso para assistir e havia boatos de que o Aquaman apareceria, resolvemos ir. Antes disso, assistimos a “Homem de Aço”, que nunca havíamos conferido, para poder entender melhor o filme novo, e daí as surpresas começaram.

Não é que eu adorei “Homem de Aço”? A gente sempre achou que seria um filme muito sorumbático, com um Superman “nada a ver”, sombrio e carrancudo, mas não foi assim, não. As discussões sobre o peso da responsabilidade e sobre como o mundo veria (e receberia) uma pessoa como Kal-El foram bem pertinentes. Além disso, eu curti muito o romance do filme. Mas a gente fala sobre isso mais tarde.

Pois bem. “Batman Vs. Superman” segue a mesma linha de “Homem de Aço” e eu... amei o filme. Mas amei mesmo. Está, para mim, ali do lado de “Soldado Invernal” e acho que até ultrapassa o filme do Cap. Que fique claro que eu quase não leio quadrinhos e não sei bem quais são as discrepâncias que o filme traz em relação à caracterização dos personagens. Matheus não curtiu tanto o Batman a la “Dark Knight”, mas eu o achei muito interessante dentro do filme. O Batman mostrado me pareceu um homem muito, muito cansado e cético, que definitivamente não está bem psicologicamente e resolve concentrar todos os seus medos e apreensões naquela figura alienígena que apareceu há dois anos, o Superman.

Uma das discussões mais interessantes do filme gira em torno do Clark, quer dizer, do Kal-El. Como o ser humano reagiria a uma criatura como ele? Veriam-no como um deus? É possível se manter bom em um mundo como o nosso? O que o peso de uma responsabilidade como essa faria a uma pessoa? Superman torna-se uma figura messiânica e a reação das pessoas a ele é totalmente plausível (para o bem e para o mal), incluindo aí a do mimado Alexander Luthor, perfeito vilão egocêntrico dos nossos tempos facebookianos. Ele é o garotinho psicótico que quer desafiar o deus que não o salvou de seus problemas pessoais. Uma mente brilhante cognitivamente, mas extremamente infantil e imatura psicologicamente. 

Muito se falou da Mulher Maravilha. Bom, eu nunca curti a Mulher Maravilha, desde pequena, e acho forçadíssimo falarem que ela foi o ponto alto do filme com TANTA coisa interessante acontecendo. Mas houve sim uma cena muito legal com ela, que a transformou em mais do que “A Mulher Foda” TM: o trecho no qual ela explica por que se afastou do mundo por quase cem anos; ali nós também vemos uma heroína marcada.

Eu achei muito interessante que se discuta o peso de ser um herói neste filme e em “Homem de Aço”, coisa que não acontece muito nas películas da Marvel, mais solares e divertidas. Gosto dos dois tipos de contar histórias, mas confesso que “Batman Vs. Superman” me tocou muito mais com seus questionamentos. Os paralelos com religião, a discussão sobre a necessidade do ser humano de acreditar em algo maior (e melhor) são coisas muito caras a mim. Além disso, a forma ruim como muitos reagem ao Superman é extremamente coerente.

Superman e Lois, aliás, são muito emblemáticos. A minha vida toda eu ouvi as pessoas tirando sarro do Superman e dizendo que ele é sem sal e escoteiro, que é sem graça... tudo bem, todo mundo tem direito de não gostar de um personagem. Mas é interessante ver como muitas pessoas reagem a personagens bons. Tem vezes que não é nem questão de gosto, é uma inabilidade em aceitar, mesmo. É como se eles não fossem possíveis. Por isso a reação ao Superman, no filme, se torna tão interessante: ELE TEM QUE estar fazendo alguma coisa ruim, ele TEM QUE estar errado de algum jeito, ele precisa se tornar um vilão. Gente boa assim não existe.

Vocês já viram como nunca se duvida do mal e das escalas de cinza (eu também não duvido nada destas coisas), mas duvida-se do bom e do bem? As pessoas (e eu me incluo nisso) PROCURAM coisas erradas. Elas desconfiam de TUDO. Se alguém está fazendo alguma coisa boa, tem que haver ali uma motivação escusa. Noto isso até na minha esfera pessoal: nunca comento nada sobre minha vida a dois (até porque não há necessidade), mas o simples fato de eu e o Matheus vivermos bem (e “bem” não é sinônimo de “sem problemas”) e nos tratarmos com carinho já faz as pessoas dizerem (do nada, sem eu ter pedido opinião) que logo isso vai acabar ou que a gente deve se trair ou coisa assim. Porque DEVE TER ALGUMA COISA ERRADA, um segredo hediondo. PRECISA ter.

Superman representa esse bem que as pessoas não conseguem mais aceitar em um mundo cínico como o nosso. E a relação dele com a Lois também é uma relação em que as pessoas não acreditam. Eu li em vários lugares que a Lois não é uma boa “representação feminina” e fiquei com cara de “pois é”.

Fiquei super feliz com a Lois neste filme. Já foi estabelecido que ela é uma pessoa corajosa, que ela tem sua profissão e etc. Só que ela é uma humana em uma luta de deuses e gigantes e é óbvio que vai ficar em desvantagem. E eu vi ali uma mulher que não precisa provar nada, cuja imagem não é tão frágil que ela não possa ser salva (ou vai quebrar a aura de “Mulher Foda TM”). Estou cansada de personagens de papelão, de mulheres que não podem errar ou ter suas fragilidades em nome de uma suposta “melhor representação”. Pois a Lois me representa. “Ah, mas ela só fica indo atrás do Superman”. Então, deixa eu explicar uma coisa, gente, é a REAÇÃO HUMANA, normal, de uma pessoa que ama a outra. Eu iria atrás do meu marido até no inferno se soubesse que ele está em perigo ou pode morrer (e vice-versa, viu?). O Clark estava sendo massacrado de todos os lados, são absolutamente naturais as reações dela e a forma como ela foi colocada na história.

Achei lindas as cenas em que o Clark salvou ela e as cenas em que ela foi em auxílio dele. Lindas mesmo. “You are my world”. Suspirei, chorei, achei bonito. Isso me toca, ponto. E daí do lado tinha a Mulher Maravilha. Outro tipo de mulher, outro tipo de personagem. Legal. Permitam que as mulheres sejam diversas. Não batam na Lois e exaltem a Mulher Maravilha como “o modelo de representavidade” (pelo menos não o único). Há quem se sinta representada pela Lois Lane, eu sou uma delas. Sou uma mulher humana que ama alguém e que gostaria de ter a coragem de fazer muito por ele, caso fosse necessário. Eu não preciso de uma espada e um escudo para me sentir forte (mas entendo quem curte, entendo mesmo), eu sempre achei que a força está no coração (aliás, não é à toa que eu gosto do Superman também) e fico feliz que haja mulheres de todos os tipos surgindo nas histórias. Só não façam (ou continuem fazendo) mulheres de papelão. Mulheres que, ao invés de estarem ali “só para serem salvas”, estão ali para reforçar qualquer pauta panfletária. Questões de representatividade podem ser discutidas em histórias sem parecer que a gente está assistindo a um vídeo institucional didático, gente.

Essa necessidade de trazer novas personagens femininas “fortes” tem criado umas aberrações e umas voltas de roteiro que eu vou te contar. Eu estava amando Legends of Tomorrow, da CW (mesmo com os furos), mas os criadores têm tomado cada decisão criativa que dá vontade de chorar (o último episódio foi tão descaradamente panfletário que ficou artificial – de papelão, como eu disse). Por exemplo, decidiu-se que a Kendra Saunders não podia ficar com o Carter Hall porque ela não podia estar sempre atrelada a um personagem masculino e blá-blá-blá. Mataram o Carter. Daí decidiram que seria uma boa ideia a Kendra “escolher” ficar com o Ray Palmer (oi?), mas ela não pode ser uma “donzela em perigo” (estou pegando birra desse termo). Então, um dia ela vai enfrentar o grande vilão imortal da história, que ela ainda NÃO conseguiu matar em umas 400 encarnações. Esse cara precisa morrer ou senão uma porção de tragédias e calamidades vai acontecer no futuro. Bem, ela tem duas opções:

- Ir sozinha;

- Levar o Ray no bolso para ajudar, caso precise (ele pode ficar pequenino);

O Ray, obviamente, oferece ajuda (e o Ray de LOT é um doce. Ele ofereceria ajuda para qualquer um. Ele tomou uma surra pelo Heatwave, gente). Só há VANTAGENS em levá-lo, sério. O que ela faz? Briga com ele, porque o ego de “mulher independente” (?) dela é mais importante do que, sei lá, o resto do mundo, e vai sozinha.  As coisas dão errado e no final ele ainda pede desculpas para ela porque ela precisa de “um companheiro e não de um namorado super protetor”.

(Não, Ray. Você não precisa se desculpar. A Kendra achou que o ego dela era mais importante do que resolver um problema de escalas globais. A cagada não foi sua. E um companheiro também teria oferecido ajuda, porque ACEITAR AJUDA NÃO É FRAGILIDADE, em muitos casos é simples questão de inteligência).

Enfim. O post já está muito grande, então, só digo isso: Lois me representa. A Mulher Maravilha é legal, mas é com a Lois que eu me identifico, e aprendi que não tem nada de errado em ser humana e ser salva de vez em quando.

;´) 

4 comentários:

  1. Tem toda razão. É como se "tivesse" que haver algo errado em alguém que age por puro altruísmo. É uma maneira muito cínica de ver a vida, mas infelizmente, é o que mais acontece, e o filme trabalha muito bem esta questão.

    Também gostei muito de Lois Lane. Chega a ser ridículo querer que todas as mulheres da mídia sejam como a Mulher-Maravilha, como se qualquer coisa diferente disso fosse "errado" ou um tabu. Enfim, foi um ótimo filme.

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    1. Então. Todo mundo fica nessa dança do cinismo e depois lamenta que o mundo está de tal jeito ou fica triste de ser passado para trás (e isso é um puxão de orelha que eu mesma me dou várias vezes). Achei muito legal a discussão que o Superman proporcionou no filme.

      Não dá para todo mundo ser Mulher Maravilha. Nem todo mundo quer ser Mulher Maravilha. Que façam filme dela, que tragam heroínas e boas personagens para as telonas, mas que as tratem de maneira decente, com camadas, como fazem com os personagens masculinos. Sem papelão, por favor! E Lois e Clark são uns lindos.

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  2. "You are my word"!!! TEM COMO NÃO AMAR????

    Foi uma verdadeira jornada épica para que eu finalmente conseguisse assistir a esse filme, mas Deus do céu, VALEU À PENA!!! Eu cresci indiretamente cercada por ícones dos quadrinhos como Batman, Superman, Homem-Aranha, Mulher-Maravilha e tantos outros, e fiquei emocionada ao ver este filme. Gente, fazia ANOS que eu não chorava no cinema, e chorei no final de Batman Vs Superman.
    A relação do Superman e Lois está PERFEITA, e mesmo com a caracterização da Mulher-Maravilha meio ruim (não, moleques, ela não é uma bárbara que adora dar porrada e se diverte nas lutas. Ela é uma guerreira exímia, mas é pacifista) achei o filme incrível.

    E antes que alguém venha jogando pedra dizendo coisas do tipo “meninas não entendem nada de quadrinhos”, aviso que, como meu marido sempre gostou muito disso e nos conhecemos há muito tempo, tenho mais tempo de HQ do que muitos dos tontos que andam reclamando tem de vida. Isto não é o Cavaleiro Das Trevas de Frank Miller, e nem tem que ser. O que o povo esperava? Que eles ficassem se batendo o filme todo? E só lembrando, a história de Miller mostra um futuro sombrio e alternativo, não algo corrente no universo DC.

    Esta é uma história muito bem contada sobre como nosso mundo foi gradativamente perdendo a noção do que é bom e justo, a ponto de não conseguir mais reconhecer isso. Alguns podem achar a analogia meio forçada, ou até desrespeitosa, mas a história contada tem muitos elementos da própria história de Jesus.
    Eu amei!!!
    Beijos da Amanda^^

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    1. NÃO TEM COMO NÃO AMAR, NÃO TEM NÃO, EU JÁ PESQUISEI!!!

      Esse filme vale muito à pena, Amanda. Você cresceu mesmo com estes personagens, né? Que emoção! Queria ter lido mais quadrinhos quando pequena. O Matheus fala que toda a base moral dele veio dos quadrinhos de super-herói, era onde ele se apoiava. Estou muito feliz por ter assistido e ontem mesmo falei exatamente a mesma coisa para o Matheus: fazia MUITO tempo que eu não chorava no cinema como eu chorei no final de Batman Vs. Superman. Eu tive que respirar fundo várias vezes para não soluçar. O Matheus não tinha me contado o possível final, então quando eu me toquei, as lágrimas saltaram. Embacei todo o óculos 3D. Fiquei extremamente emocionada, e tinha uma velhinha fofa do nosso lado chorando muito também. Até agora me arrepio só de pensar.

      Então, pessoal acha que Mulher Maravilha é tipo Xena, né? O Matheus me falou que ela é pacifista, mas o pessoal prefere uma bárbara com espírito berserker. Eu não fui muito fã da caracterização dela também... como eu disse, a cena dela que eu gostei foi a do final. Mas não quis entrar nesse mérito porque admito que conheço pouco a personagem. Por algum motivo, nunca me interessei muito pela Mulher Maravilha.

      Fico de cara com isso... tem gente que realmente esperava que eles passariam duas horas e meia se batendo. E falaram que foi forçada a questão da Martha... putz, o Batman estava claramente agindo por um impulso e é traumatizado pela morte dos pais. É óbvio que aquilo ia tocar ele. (e muito bonitinho ele indo salvar a Martha).

      Concordo plenamente: essa é uma história sobre como estamos perdendo a capacidade de reconhecer o que é bom e justo. Uma história que mostra como teríamos medo disso, se tal coisa surgisse na nossa frente. A analogia com Jesus não é nem um pouco forçada, a própria lança de kryptonita sugere a lança da bíblia... o filme é repleto de simbolismo religioso, o sonho do Bruce na capela tinha um São Miguel com uma capa vermelha... eu achei muito bem feito, muito bonito. Tudo ficou sugerido. Meu primo até brincou, depois que a gente saiu do cinema, que o filme foi propositalmente lançado na Páscoa XD.

      Eu amei também!! Muito!! E Superman e Lois ♥, MEU DEUS!!!

      Beijos no coração!

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